SPFW N44: NOVAS BELEZAS

 

Todos os jeitos e idades no desfile de Ronaldo Fraga.

A edição N44 do São Paulo Fashion Week acabou na semana passada tentando se reinventar e manter-se relevante em tempos que não tem sido fáceis para a moda e grandes eventos. Deixa no ar a fragrância que mistura manifesto, encontro de culturas, belezas repensadas e uma ode à alma brasileira como receita de sobrevivência. Em edição que lidou com tantas dicotomias e desconstruções de padrões, o encerramento não poderia ser outro senão uma bandeira hasteada com a mensagem: toda a beleza pode ser. E assim será.

O desfile da À La Garçonne abriu — não oficialmente — o SPFW N44 trazendo, logo de cara, moda que lida com dicotomias sociais que já não fazem sentido e que, tampouco, podem ser chamadas de ecletismo. Lá estava o funk em recortes de música clássica trepidando a passarela montada no Theatro Municipal de São Paulo enquanto modelos desfilavam o melhor do streetwear com peças de festa, da alfaiataria em cores utilitárias, do vintage e do contemporâneo. A estratégia de Herchcovitch e Fábio Souza de reutilizar peças que encarnam o DNA da marca aponta para uma estratégia de marcação estética que algumas marcas europeias, como Gucci e Vetements, já estão fazendo. O truque é operar com informação de moda que não necessariamente precisa se extinguir a cada seis meses.

Quem também lidou com dualidades foi João Pimenta. O estilista trouxe batalhas seculares para a passarela: o sagrado e o profano, o bem e o mal, a nudez e o conservadorismo, levantando a mensagem de que nenhum deles age isoladamente, mas se alimentam um do outro. No limbo de Pimenta, as transparências do céu, em camisas com fivelas de metal, e as labaredas do inferno, em blazers e moletons, coexistem e nos divertem.

A alma brasileira nasce na passarela da Osklen em tons plácidos como uma tela em branco que aos poucos vai recebendo esboços e que, por fim, é preenchida com todas as cores e figuras de Tarsila do Amaral — inspiração que foi sugerida ao estilista da marca pela própria família da artista. Oskar Metsavaht estudou os desenhos à lápis de Tarsila, traduzindo-os em calças oversize de linho e trabalhou o lado fashionista da artista explorando o famoso Manteau Rouge em peças de corte contemporâneo.

Oswald de Andrade, marido de Tarsila, inspirou outra marca. A Triya tomou como partida o poema ‘Erro de Português’ que fala do desembarque do europeu no Brasil. “Quando o português chegou debaixo duma bruta chuva vestiu o índio. Que pena! Fosse uma manhã de sol, o índio tinha despido o português”. A estilista Isabela Frugiuele explora o Brasil pelo olhar dos colonizadores portugueses, imprimindo em hot pants estampas inspiradas na exuberância da natureza do país e, sem fazer protesto explícito, poê em xeque o debate de preservação da Amazônia.

O clima vintage dominou a estética dessa edição. Ronaldo Fraga trouxe um espetáculo de corpos e jeitos variados para dar vida a trajes de banho sem costura inspirados nos anos 20.

Patrícia Bonaldi trouxe uma versão Ladylike excêntrica, lúdica e surreal em estampas de peixes e cogumelos, em peças de ombros marcados.

Amir Slama mergulhou no universo das vedetes brasileiras e no glamour das décadas de 40 e 50  em modelos com nipple tassel, correntes reluzentes e camisas de cetim sobre lingerie em um espírito boudoir marcante de uma — até bem decente — dançarina burlesca.

Entre as estrangeiras convidadas, a australiana Vanessa Moe emocionou com uma coleção de ares Couture, levantando questões sobre herança e visibilidade dos aborígenes da Oceania, população viva mais antiga do planeta. Com modelos descendentes desses povos e peças que contam com todo o expertise manual típico de mulheres do clã, Vanessa traça um discurso importante de luta por sobrevivência e preservação de uma cultura.

A russa Maria Kazakova, líder da marca Jahnkoy, elevou o nível de desfile manifesto e realizou performance que parou o público do SPFW. Os modelos negros — em peças que misturam a África artesanal ao sportwear — desciam das rampas e performavam em frente a um grupo de capoeiristas. Em uma peça era possível se ler “don´t bring your shit to Africa” — uma mensagem para as grandes empresas que despejam lixo no continente africano.  A moda de Kazakova questiona a sustentabilidade do sistema atual e busca trazer consciência sobre outros modos mais viáveis de produção, distribuição e consumo.

.O encerramento do SPFW ficou por conta da ação #todabelezapodeser, uma parceria da Natura com o curador Jackson Araújo e o estilista-ativista Victor Apolinário, da Cem Freio.

Parte da coleção de Apolinário foi desenvolvida durante a semana dos desfiles em processo de co-criação que partiu de corpos e jeitos distintos para ajudar a fortalecer pilares como aceitação e liberdade de protestar. O casting, não necessariamente com pessoas da área, trouxe as próprias histórias para a passarela contribuindo com o manifesto da visibilidade.